por André Luzório Musquito
O caso é breve.
Ocorrera num dia de Sol, numa manhã briosa. Talvez não mais seria do que umas onze e pouca da manhã. Era agosto, daqueles frios e com gotas nas folhas que brilham quando amanhece, sabe. Enfim, era para ser um dia qualquer. Era.
Estávamos prontos, a sair de casa eu, meu vizinho Marquinho Alface e meu primo Didigo Bigodinho – pois já aparecia, com nove anos de idade, a sombra da taturana em seu buço - e tomar o rumo do campinho do Serra Pelada, com seus buracos e toda aquela areia que gruda no corpo e não sai nem com palha de aço. Levávamos a bola azul com apenas cinco gomos, já descolando. Quase quatro, na verdade. Como de praxe, corríamos pelas disformes calçadas e chamávamos aos muros todos os outros meninos da rua no curto caminho de três minutinhos que separavam a nossa ansiedade do futebol. A bola já se ia a quicar, tangenciando algumas vidraças já temerosas.
Tudo isso para ganhar, mais uma vez, do time dos garotos da Área Cinco, outra vila lá do morro. Era o melhor do sábado: sempre apostávamos o Tobi guaraná de garrafa de vidro e a sede era muito menor que a satisfação de vê-los aguando enquanto esbaldávamos os louros da vitória. Com direito a narração dos gols sob forma de arrotos. A maldade não nos era constituinte, creia: tudo era pela rixa com eles lá da Área Cinco, que sempre metiam marimba nas nossas linhas de nossas pipas quando descarregávamos o carretel, ficando vulneráveis a ataques ímpios deste porte. Como pode perceber, era uma questão de justiça.
Pois bem.
Na volta, quando habitualmente jogaríamos no fio de luz da esquina do Buteco do Binha (deixando mais uma vez desligado aquele seu freezer velho e cheio de ferrugem e com a borracha saindo e sem rodinha e etc...) o Kichute mais velho do time - geralmente era do Rabicó, pois ele sempre arranjava um só tênis todo ferrado, de tamanho e cor diferente. Aí, íamos revezando a cada semana qual pé subiria no transformador... -, passou por nós uma Brasília conversível cheia de vassouras, com uns cinco homens falando alto e gargalhando. Passou por nós em uma curva que dava lá na Rua Doze, rua esta que contornava o quarteirão. Quarteirão na favela? Contornava era a pracinha mesmo... Mas não prestamos atenção naquilo. Continuamos nossa empreitada galgando lograr êxito nos arremessos de Kichute ao fio. Mas aqueles homens na caçamba da Brasília conversível, aquelas vassouras, aqueles sorrisos...
Nada que nos atentasse para a estranheza, visto que na favela se vê de tudo, de carroça com carroceria de Tempra SW (com bancos bipartidos e tudo, quase parecia uma biga super luxo) a vendedor de sapateira que caminha descalço. É assim mesmo: no morro ninguém se assusta ou, pelo menos, aprende na marra a se acostumar com o que seria inaceitável, desde a violência do tráfico até a violência social, como a fome, a carência de escola e a inexistência da mínima condição de cidadania. Mas isso não é coisa que criança pense. Nem escreva.
Bem, depois de circundar a pracinha, com suas mesas de concreto de jogar dama e seus respectivos bancos sempre quebrados, com suas aroeiras e amendoeiras cheias de armações de pipas rasgadas e rabiolas coloridas - como um cemitério vertical e verde -, com suas barras paralelas todas tortas, deixando padronizadas as escolioses dos marombeiros do meio-dia, depois de circundar a pracinha, a Brasília conversível parou em frente ao Bar do Binha, pouco após termos virado a esquina.
Instantes entre nós e o fato.
Bateram palmas e chamaram o Armando Cabeção. Ele era o cara que trazia os grupos de pagode para as feijoadas de domingo. Sua mulher, com a cabeça na janela, disse que ele havia ido comprar pão. Muito quisto pela comunidade e tão popular quanto; a pobre somente fez o de costume, quando alguém perguntava por ele, o que, na maioria das vezes, derivava de um pedido de ajuda para levar alguém doente de carro ao hospital ou perguntar sobre quem viria para a roda de samba de domingo. Pois bem. Cabeção viu, da banca de jornal - aquela, logo ali, do lado da barraca de cocada da Dona Amélia - aqueles homens risonhos. Foram dezessete tiros de sete meia cinco, modo semi-automático, dos dois pentes (carregadores, na linguagem bélica) que se esvaziaram. O som do estrondo dos disparos nos deixou momentaneamente surdos: um fino zumbido de sangue em nossos ouvidos. Somente o tilintar das cápsulas ao meio fio era belo de se ouvir.
Os homens risonhos da Brasília conversível vieram e fizeram cumprir sua investida naquela manhã briosa de sábado de agosto. A filha caçula de seis anos viu tudo, imóvel, sem chorar uma só gota, muda, sem soluços. Sem piscar. E lá ficou, para somente após os homens terem ido embora, bem calmamente balbuciar, com rouquidão de anjo sonolento, um “papai tá dodói”, o qual fez a mãe, agora aos berros e pranto inconsoláveis em meio ao grande círculo de curiosos comentaristas que se amontoavam uns por sobre os outros, tomá-la em seus braços, de chofre, como quem agarra a própria vida. O pai teve lacerado o braço esquerdo pelos disparos de fuzil de porte pesado, antiaéreos. Seu sangue seguia as falhas da calçada, ia a brilhar o sol daquele meio-dia. Não adiantou correr. O jornal sorvia deleitoso, às letras rubras, então, o sangue do pobre homem. Não se sabia o porquê. Não se dizia, porém, que não houvera um “por onde”. Não se reconhecia o rosto da vítima, já lacranado pelos projéteis certeiros, nem os dos assassinos, já sabido quem os eram: no morro também se aprende a calar e cegar, em tempo. Esquecer, nunca.
Isto, pois, soubemos por outros. Já havíamos corrido o suficiente para deixar o lugar do alvejo e para que o medo nos desse brecha e nos dignasse, novamente, à habilidade da fala. Com o coração na mão e total incapacidade de formular algum pobre pensamento qualquer, nós três olhávamos uns para os outros. Olhos em branco. Perdi um pé de minhas havaianas amarelas. Lá para aquelas bandas do meio-dia daquele sábado não havia mais orvalho nas folhas. A manhã não era briosa: não era mais manhã. Era agosto, daqueles ensolarados e frios. Enfim, era para ser um dia qualquer. Era.
MUSQUITO, André Luzório . Cabeçamenino, seus contos e memórias. Rio de Janeiro, 2007. Ed. Simulacros.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
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