sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

HAVAIANAS AMARELAS MANCAS.

por André Luzório Musquito

O caso é breve.

Ocorrera num dia de Sol, numa manhã briosa. Talvez não mais seria do que umas onze e pouca da manhã. Era agosto, daqueles frios e com gotas nas folhas que brilham quando amanhece, sabe. Enfim, era para ser um dia qualquer. Era.

Estávamos prontos, a sair de casa eu, meu vizinho Marquinho Alface e meu primo Didigo Bigodinho – pois já aparecia, com nove anos de idade, a sombra da taturana em seu buço - e tomar o rumo do campinho do Serra Pelada, com seus buracos e toda aquela areia que gruda no corpo e não sai nem com palha de aço. Levávamos a bola azul com apenas cinco gomos, já descolando. Quase quatro, na verdade. Como de praxe, corríamos pelas disformes calçadas e chamávamos aos muros todos os outros meninos da rua no curto caminho de três minutinhos que separavam a nossa ansiedade do futebol. A bola já se ia a quicar, tangenciando algumas vidraças já temerosas.

Tudo isso para ganhar, mais uma vez, do time dos garotos da Área Cinco, outra vila lá do morro. Era o melhor do sábado: sempre apostávamos o Tobi guaraná de garrafa de vidro e a sede era muito menor que a satisfação de vê-los aguando enquanto esbaldávamos os louros da vitória. Com direito a narração dos gols sob forma de arrotos. A maldade não nos era constituinte, creia: tudo era pela rixa com eles lá da Área Cinco, que sempre metiam marimba nas nossas linhas de nossas pipas quando descarregávamos o carretel, ficando vulneráveis a ataques ímpios deste porte. Como pode perceber, era uma questão de justiça.

Pois bem.

Na volta, quando habitualmente jogaríamos no fio de luz da esquina do Buteco do Binha (deixando mais uma vez desligado aquele seu freezer velho e cheio de ferrugem e com a borracha saindo e sem rodinha e etc...) o Kichute mais velho do time - geralmente era do Rabicó, pois ele sempre arranjava um só tênis todo ferrado, de tamanho e cor diferente. Aí, íamos revezando a cada semana qual pé subiria no transformador... -, passou por nós uma Brasília conversível cheia de vassouras, com uns cinco homens falando alto e gargalhando. Passou por nós em uma curva que dava lá na Rua Doze, rua esta que contornava o quarteirão. Quarteirão na favela? Contornava era a pracinha mesmo... Mas não prestamos atenção naquilo. Continuamos nossa empreitada galgando lograr êxito nos arremessos de Kichute ao fio. Mas aqueles homens na caçamba da Brasília conversível, aquelas vassouras, aqueles sorrisos...

Nada que nos atentasse para a estranheza, visto que na favela se vê de tudo, de carroça com carroceria de Tempra SW (com bancos bipartidos e tudo, quase parecia uma biga super luxo) a vendedor de sapateira que caminha descalço. É assim mesmo: no morro ninguém se assusta ou, pelo menos, aprende na marra a se acostumar com o que seria inaceitável, desde a violência do tráfico até a violência social, como a fome, a carência de escola e a inexistência da mínima condição de cidadania. Mas isso não é coisa que criança pense. Nem escreva.

Bem, depois de circundar a pracinha, com suas mesas de concreto de jogar dama e seus respectivos bancos sempre quebrados, com suas aroeiras e amendoeiras cheias de armações de pipas rasgadas e rabiolas coloridas - como um cemitério vertical e verde -, com suas barras paralelas todas tortas, deixando padronizadas as escolioses dos marombeiros do meio-dia, depois de circundar a pracinha, a Brasília conversível parou em frente ao Bar do Binha, pouco após termos virado a esquina.

Instantes entre nós e o fato.

Bateram palmas e chamaram o Armando Cabeção. Ele era o cara que trazia os grupos de pagode para as feijoadas de domingo. Sua mulher, com a cabeça na janela, disse que ele havia ido comprar pão. Muito quisto pela comunidade e tão popular quanto; a pobre somente fez o de costume, quando alguém perguntava por ele, o que, na maioria das vezes, derivava de um pedido de ajuda para levar alguém doente de carro ao hospital ou perguntar sobre quem viria para a roda de samba de domingo. Pois bem. Cabeção viu, da banca de jornal - aquela, logo ali, do lado da barraca de cocada da Dona Amélia - aqueles homens risonhos. Foram dezessete tiros de sete meia cinco, modo semi-automático, dos dois pentes (carregadores, na linguagem bélica) que se esvaziaram. O som do estrondo dos disparos nos deixou momentaneamente surdos: um fino zumbido de sangue em nossos ouvidos. Somente o tilintar das cápsulas ao meio fio era belo de se ouvir.

Os homens risonhos da Brasília conversível vieram e fizeram cumprir sua investida naquela manhã briosa de sábado de agosto. A filha caçula de seis anos viu tudo, imóvel, sem chorar uma só gota, muda, sem soluços. Sem piscar. E lá ficou, para somente após os homens terem ido embora, bem calmamente balbuciar, com rouquidão de anjo sonolento, um “papai tá dodói”, o qual fez a mãe, agora aos berros e pranto inconsoláveis em meio ao grande círculo de curiosos comentaristas que se amontoavam uns por sobre os outros, tomá-la em seus braços, de chofre, como quem agarra a própria vida. O pai teve lacerado o braço esquerdo pelos disparos de fuzil de porte pesado, antiaéreos. Seu sangue seguia as falhas da calçada, ia a brilhar o sol daquele meio-dia. Não adiantou correr. O jornal sorvia deleitoso, às letras rubras, então, o sangue do pobre homem. Não se sabia o porquê. Não se dizia, porém, que não houvera um “por onde”. Não se reconhecia o rosto da vítima, já lacranado pelos projéteis certeiros, nem os dos assassinos, já sabido quem os eram: no morro também se aprende a calar e cegar, em tempo. Esquecer, nunca.

Isto, pois, soubemos por outros. Já havíamos corrido o suficiente para deixar o lugar do alvejo e para que o medo nos desse brecha e nos dignasse, novamente, à habilidade da fala. Com o coração na mão e total incapacidade de formular algum pobre pensamento qualquer, nós três olhávamos uns para os outros. Olhos em branco. Perdi um pé de minhas havaianas amarelas. Lá para aquelas bandas do meio-dia daquele sábado não havia mais orvalho nas folhas. A manhã não era briosa: não era mais manhã. Era agosto, daqueles ensolarados e frios. Enfim, era para ser um dia qualquer. Era.





MUSQUITO, André Luzório . Cabeçamenino, seus contos e memórias. Rio de Janeiro, 2007. Ed. Simulacros.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.


Clarice Lispector

sábado, 27 de outubro de 2007

sábado, 22 de setembro de 2007

DA SUA NATUREZA

Sorte nossa que as árvores não gemem e os animais não falam. Imagine se cada vez que se aproximasse uma motosserra as árvores começassem a gritar “Ai, ai, ai!” e aos bois não faltassem argumentos razoáveis para não querer entrar no matadouro. Imagine porcos parlamentando em causa própria, galinhas bem articuladas reivindicando sua participação na renda dos ovos e gritando slogans contra o hábito bárbaro de comê-las, pássaros engaiolados fazendo discursos inflamados pela liberdade. Os únicos bichos que falam são os papagaios, mas até hoje não se tem noticia de um que defendesse os direitos dos outros. O papagaio tem voz, mas não tem consciência de classe.
A vida humana seria difícil, se não pudéssemos colher uma beterraba sem ouvir as lamentações da sua família, e insultos do resto da horta. Não deixaríamos de comer, claro. Nem beterrabas nem bois ou galinhas, apesar dos seus protestos. Mas o remorso, e uma correta noção da prepotência inerente à condição de espécie dominante, fariam parte da nossa dieta. Teríamos uma idéia mais exata da nossa crueldade indispensável, sem a qual não viveríamos. Sorte nossa que os vegetais e os animais não tem nem uma linguagem, quanto mais um discurso organizado. Não os comeríamos com a mesma empáfia se tivessem. O único consolo deles é que também padecemos da falta de comunicação: ainda não encontramos um jeito de negociar com os germes, convencer os vírus a nos pouparem com retórica e dar remorso em epidemias.
Eu às vezes fico pensando em como seria se os brasileiros falassem. Se protestassem contra o que lhes fazem , se fizessem discursos indignados em todas as filas de matadouros, se cobrassem com veemência uma participação em tudo que produzem para enriquecer os outros, reagissem a todas as mentiras que lhes dizem, reclamassem tudo que lhes foi negado e sonegado e se negassem a continuar sendo devorados, rotineiramente, em silencio. Não é da sua natureza, eu sei, só estou especulando. Ainda seriam dominados por quem domina a linguagem e, além de tudo, sabe que fala mais alto o que nem boca tem, o dinheiro. Mas pelo menos não os comeriam com a mesma empáfia.

Veríssimo



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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

ALIENAÇÃO

O que é?

Dois autores são importantes para entender os conceitos de Alienação: Marx e Durkheim.

O indivíduo alienado é aquele que se submete aos valores e instituições que o cerca. Submete-se cegamente sem haver um questionamento.

Alienação seria um problema de legitimidade do controle social, um problema de poder. Ela torna o indivíduo separado da sociedade e, para Marx, quando o indivíduo aliena-se da sociedade ele aliena-se de si mesmo.

Hoje em dia temos vários motivos que alienam, entre eles estão: religiões, partidos políticos, comunicação de massa entre outros.

Portanto, para nos proteger contra esse mal, devemos nos prevenir, tendo um senso crítico e ficando atento ao que tentam nos impor a cada dia que passa.




http://www.alienacaosocial.hpg.com.br/alienacaoII.htm

sábado, 15 de setembro de 2007

Perfeição - Legião Urbana

Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
Crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar eros e thanatos
Persephone e hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer da nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha, meu coração esta com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha que o que vem é perfeição...