sábado, 22 de setembro de 2007

DA SUA NATUREZA

Sorte nossa que as árvores não gemem e os animais não falam. Imagine se cada vez que se aproximasse uma motosserra as árvores começassem a gritar “Ai, ai, ai!” e aos bois não faltassem argumentos razoáveis para não querer entrar no matadouro. Imagine porcos parlamentando em causa própria, galinhas bem articuladas reivindicando sua participação na renda dos ovos e gritando slogans contra o hábito bárbaro de comê-las, pássaros engaiolados fazendo discursos inflamados pela liberdade. Os únicos bichos que falam são os papagaios, mas até hoje não se tem noticia de um que defendesse os direitos dos outros. O papagaio tem voz, mas não tem consciência de classe.
A vida humana seria difícil, se não pudéssemos colher uma beterraba sem ouvir as lamentações da sua família, e insultos do resto da horta. Não deixaríamos de comer, claro. Nem beterrabas nem bois ou galinhas, apesar dos seus protestos. Mas o remorso, e uma correta noção da prepotência inerente à condição de espécie dominante, fariam parte da nossa dieta. Teríamos uma idéia mais exata da nossa crueldade indispensável, sem a qual não viveríamos. Sorte nossa que os vegetais e os animais não tem nem uma linguagem, quanto mais um discurso organizado. Não os comeríamos com a mesma empáfia se tivessem. O único consolo deles é que também padecemos da falta de comunicação: ainda não encontramos um jeito de negociar com os germes, convencer os vírus a nos pouparem com retórica e dar remorso em epidemias.
Eu às vezes fico pensando em como seria se os brasileiros falassem. Se protestassem contra o que lhes fazem , se fizessem discursos indignados em todas as filas de matadouros, se cobrassem com veemência uma participação em tudo que produzem para enriquecer os outros, reagissem a todas as mentiras que lhes dizem, reclamassem tudo que lhes foi negado e sonegado e se negassem a continuar sendo devorados, rotineiramente, em silencio. Não é da sua natureza, eu sei, só estou especulando. Ainda seriam dominados por quem domina a linguagem e, além de tudo, sabe que fala mais alto o que nem boca tem, o dinheiro. Mas pelo menos não os comeriam com a mesma empáfia.

Veríssimo



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5 comentários:

Didática - Professor Márcio disse...

Maravilhoso o texto e a "escultura fotográfica" do Rodin.

Isabelle Pacheco disse...

Olá amigos! Agora estamos aqui também! Samara e euzinha, Isabelle! Espero receber a visita de vocês em nosso blog, tá? Beijos!

http://art-e-facto.blogspot.com/

Raquel disse...

Por alguns segundos achei que tinha um colega que escrevia igual ao Veríssimo. O texto dele é simplesmente inconfundível! Obrigada por postarem porque esse eu não conhecia. É simplesmente demais!

Escolinha da tia Cotinha disse...

Gostei do texto, vocês postaram em um momento de total falta vergonha na política, por isso acho que vem a calhar.

Didática - Professor Márcio disse...

Atenção...atualização...atualização...atualização...
se é que me entendem...escrita atualizada, de semana em semana...vcs ainda estão vivos!!!